SER PAI EM TEMPOS DE PANDEMIA


Uma experiência radicalmente profunda, neste período de pandemia, é o cuidado com os filhos. Tenho cinco filhos: dois adolescentes, João Caetano e Theo Vinícius, e três meninas pequenas, Diadorim, e as gêmeas Cora e Pila. Construímos uma rotina, na qual, minha companheira Iris, trabalha fora de casa, enquanto eu trabalho home office. Assim, a dinâmica da casa e as demandas com as crianças acabam ficando mais por minha conta.


Durante todo este tempo, mantendo o isolamento social, canceladas as aulas presenciais, fechados os espaços de lazer, a nossa casa se transformou num microcosmos de caos e descobertas. Primeiramente o reconhecimento das dificuldades que este momento impõe, as flutuações de humor, o enfrentamento dos limites destes espaços, a intensidade das demandas e a rotina em conciliar: o trabalho, a escola, as brincadeiras, a alimentação, as brigas, as manhas, os choros, o uso excessivo dos eletrônicos, arrumação da casa, e tantas e tantas outras necessidades que a vida com os pequenos exige.


Como criar possibilidades de aprendizagem neste espaço-tempo? Como considerar as necessidades de cada um, num ambiente tão limitado? Esta convivência intensa com as crianças me trouxe outros sentidos para o que é ser pai.


Uma compreensão de como é desafiador este tempo com os filhos: ter uma qualidade de presença, entender qual é o tempo do ócio e das atividades, da bagunça e da arrumação, de propor uma brincadeira ou um filme com pipoca, de ser mais permissivo ou severo, de fazer um bolo juntos ou preparar um piquenique na varanda. Ter que aprender sobre a paciência diante das demandas insistentes por atenção. Por vezes este momento é aterrorizante.


A necessidade de manter as coisas funcionando bem, de manter-se leve se revela pesada demais. Precisei olhar para estes limites, reconhecer minha falta de preparo, abrir brechas para outras escutas, conversar com os amigos, pedir ajuda. Tenho descoberto outras maneiras de estar em casa, temos criado outras intimidades, tecido junto com as crianças, e com minha companheira, novos laços, profundos laços. Me recordei dos versos do poema “Tecendo amanhã” de João Cabral de Melo Neto:


Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito de um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos.”


Todos estes acontecimentos que esta pandemia nos trouxe, nos afeta de maneira radical e profunda, e nos convoca a repensar o nosso estar no mundo. A tecer outras possibilidades de enfrentamento e outras construções de sentido.


Como estar à altura deste acontecimento? Como inventar outros comportamentos? Como tecer novas formas de acolhimento? Por hora sobressai o afeto do cuidado: a necessidade do cuidar de si e dos outros, cuidar da saúde, cuidar dos nossos estados emocionais mantendo-os sadios e arejados, cuidado para manter as coisas funcionando, a despeito de todas as dificuldades do momento.


Tão logo viveremos a alegria dos encontros, a explosão dos abraços. Por agora, cuidemo-nos e aos que podem fiquem em casa.

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